Obrigado, Bolsonaro! Sem querer, você fez duas coisas boas a LGBT

Por via tortuosa e surpreendente, a vitória do deputado homofóbico nos deu senso maior de união e luta real

Publicado em 02/12/2018
bolsonaro lgbt homofobia
Com ele, demos ainda mais sentido à ideia de comunidade LGBT

Por Welton Trindade

Sabe o movimento LGBT? Aquele que, dentre seus horizontes e caminhos para lá chegar, está o fatíssimo de que orientações sexuais e gêneros são plurais, sabe? 

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Então, a crença dele, ao arrebentar as caixinhas da dicotomia e fazer sabermos que vilãs e mocinhas convictas só existem em novelas, nos dá base para vermos um pretenso absurdo: o deputado federal que colecionou fama em cima do discurso homofóbico não causou só mal a LGBT ao ser eleito presidente da República.

Não espume! Abra sua mente! E veja se não é verdade as seguintes duas coisas boas que o tal fez por nós.

Pouco tempo após a vitória bolsonarista, a juíza Maria Berenice Dias, considerada como a papisa togada mais atuante pelos direitos LGBT - e responsável pelo anacrônico e moralista termo homoafetividade - afirmou na mídia que a posse do novo presidente colocaria em risco já no 1º de janeiro o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Pânico no vale! No geral, nenhum jurista concorda com ela - um decreto presidencial não pode causar nulidade de norma vinda do Poder Judicário -, mas o alarme arco-íris apitou!

E o que nasceu? Vou ser sincero: sou ativista LGBT há quase duas décadas, e nunca tinha visto uma rede de solidariedade dentre nós tão gigantesca, tão acolhedora, tão pungente na afirmação de que sim, somos uma comunidade. 

Saiu (e ainda sai) um exército (opa) voluntário para ajudar casais a se unirem oficialmente antes do tal fatídico dia 1 da gestão do coiso.

Tem DJ, cerimonialista, decorador, fotógrafa, vaquinha, casamento coletivo... Vi até noivo voluntário (claro que nunca perderemos a chance de fazer piada. Somos gays, lembra?).

Tudo indica que a ansiedade não terá base real, mas o temor ao que poderia ser feito nos levou a nos darmos as mãos! Lindo demais!

E outra lição verde-oliva - essa tão necessária quanto a anterior.

A Parada Livre de Porto Alegre (como é chamada a parada LGBT nesse país chamado Rio Grande do Sul), a segunda mais antiga desse outro país chamado Brasil, lascou em 12 de setembro: o tema da marcha seria "Qual o teu privilégio?"

Isso mesmo! O foco da parada seria uma caça às bruxas caseira! Iria às ruas para falar mal de nós mesmos! O dedo seria apontado para fuça de alguéns dentre nós, que, aí receberiam alcunhas tais como inimigos, algozes, colaboradores da opresssão, ou até mais: a encarnação discriminatória mascarada com glitter.

parada livre porto alegre 2018
Ida de Bolsonaro ao 2º turno fez evento enxergar o verdadeiro inimigo e mudar o tema

Alguém acha realmente edificante essa postura de olhar para a pessoa ao lado no paredão (ambas vítimas), cuspir na cara dela e esquecer quem está segurando a arma?!

Já viu movimento negro, indígena, de mulheres, sem teto, de pessoas com deficiência lavarem (ou sujarem) roupa assim em público? Nem eu! Quem será que está errado?

Bom, sete de outubro: Bolsonaro por pouco não vence no primeiro turno!

Onze de outubro: o perfil do Facebook da Parada Livre registra pela primeira vez a frase: Resistir para Não Morrer. Eis o novo tema do evento e com o qual ele caminhou em 18 de novembro, em sua 22ª edição.

E que ganho! Aí sim foi identificado o verdadeiro inimigo! Ele mora fora do vale, tem poderes institucionais, mobiliza metade do país e na hora de encher os baldes com cabeças vai olhar tudo menos os tais privilégios grunhidos por parte do ativismo tão lacrativo quanto cego que tem emergido nos últimos anos por aí!

Com esses inimigos, vamos todos e todas nós termos nossa cara esfregada no chão! Caras pretas, caras escandinavas, corpos redondos, corpos apolíneos, corpos descorporados.

Eis, enfim, a proeza: Bolsonaro tirou o evento ativista do fraticídio e partição ao quais ele se propunha. Como foi feito isso? Dando-lhe algo realmente importante para se preocupar!

Triste ter de vir tal ameaça para que o movimento LGBT comece a lembrar essa lição. Comece!

O Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual, em São Paulo, por exemplo, feito também mês passado, não captou os novíssimos tempos e apostou na transformação de LGBT em porco-espinhos que se abraçam. É para aquecer, mas, sem o devido cuidado, faz é machucar o semelhante (já ferido)!

Enfim, mas todo aprendizado tem um início. E, como posto no início desse texto, nem todo mal é de todo mal! 

Obrigado, Bolsonaro! [Não acredito que escrevi isso!]


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