Denúncia: imigrantes fingem ser gays para ter asilo no Reino Unido

Reportagem mostrou que há esquema especializado em orientar pessoas a dizer que sofrem homofobia

Publicado em 18/04/2026
Imigrantes fingem ser gays na Inglaterra
Esquema denunciado existe há muitos anos na Inglaterra

Reportagem da BBC escancarou farsa que se perpetua há anos no Reino Unido: imigrantes que fingem ser gays para conseguir asilo no país.

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Repórter se passou por imigrante ilegal do Paquistão e teve contato com advogados e integrantes de ONG LGBT duvidosa que facilitam - por meio de grandes quantias de dinheiro - a obtenção de vistos mediante mentiras.

Segundo a publicação, os cidadãos paquistaneses são apenas a quarta nacionalidade mais comum em pedidos de asilo, representando 6% do total, porém, 42% de todos os pedidos de asilo alegando perseguição por orientação sexual vêm deles.

Após receberem denúncias e coletarem evidências, os jornalistas foram à reunião de uma entidade chamada Worcester LGBT, que se descreve como grupo de apoio para gays e lésbicas solicitantes de asilo.

Havia mais de 170 pessoas ali e o repórter ouviu de vários deles: "Ninguém aqui é gay. Nem 1% é gay".

Em outro momento, o repórter contatou Mazedul Hasan Shakil, que trabalha num escritório de advocacia e é o fundador da Worcester LGBT.

Ao telefone, em breve conversa, Shakil disse ao jornalista que para pedir asilo é preciso estar temendo perseguição e que isso não parecia ser o seu caso.

Horas depois, no entanto, o repórter recebeu ligação de uma mulher chamada Tanisa que pareceu entusiasmada em ajudá-lo.

Quando ele revelou que não era gay, a mulher não se importou: "Pra morar aqui agora é o método que estão adotando".

Tanisa não quis revelar quem havia passado o número do repórter, mas ele fez busca pela foto que ela usava no WhatsApp e descobriu que se tratava de Tanisa Khan, que trabalha como consultora da Worcester.

Em encontro na casa da própria Tanisa, a mulher orientou o repórter: "No momento, só existe uma forma de obter um visto, e ela está aberta. É o visto de asilo... é baseado em direitos humanos e é chamado de caso gay ou homossexual. Não há esperança de conseguir outro visto."

Ela prosseguiu: "Não há nenhuma verificação para descobrir se a pessoa é gay. O importante é o que você diz. Você só precisa dizer a eles: 'Sou gay e essa é a minha realidade'. Existem muitas organizações aqui com pessoas como você que não são gays, mas estão solicitando o visto. Você não está sozinho."

Tanisa se gabou de ter passado os últimos 17 anos ajudando imigrantes ilegais a falsificarem documentos. 

Ela explicou que seu papel era prepará-lo para a entrevista com o departamento de imigração e o ajudar a montar um "dossiê", o que incluiria anexar fotos dele tiradas em eventos e boates LGBT.

"Vou lhe dar uma carta de alguém, junto com algumas fotos, e essa pessoa escreverá que teve relações sexuais com você", acrescentou.

O jornalista também receberia uma carta da própria Worcester afirmando que ele é filiado à entidade como mais uma prova de que ele é gay.

Por esse trabalho, ela avisou que cobraria 2.500 libras (em torno de R$ 16.800). No entanto, o valor aumentaria se o pedido fosse negado pelo Ministério do Interior e fosse preciso judicializar o caso.

Quando o repórter inventou que tinha uma esposa no Paquistão e questionou como faria com ela, Tanisa informou que assim que ele trouxesse a esposa para o Reino Unido poderiam pedir asilo para a mulher alegando que ela é lésbica.

Ao mesmo tempo, o jornalista contatou um consultor jurídico de um respeitado escritório de advocacia que também havia sido citado em denúncias recebidas pela reportagem.

O homem chamado Aqeel Abasi afirmou que sabia como ajudá-lo a permanecer no país e orientá-lo a fabricar provas. Seus honorários custariam 7 mil libras (cerca de R$ 47 mil).

Como Tanisa, ele também disse ao repórter para que ele fosse a boates gays e tirasse fotos no ambiente. Abasi sugeriu que o repórter também encontrasse alguém para dizer ao Ministério do Interior que é seu companheiro.

O jornalista ainda teve contato com um homem - identificado pelo pseudônimo de Ali na reportagem - que foi ao Reino Unido em 2011 como estudante.

Uma vez no país europeu, Ali procurou uma advogada que o aconselhou a se passar por gay para conseguir asilo.

A mulher lhe disse para ele se consultar com clínico geral alegando depressão para que ele tivesse receita de medicamentos que seria apresentada como prova. Ela o fez, inclusive, a levar os comprimidos à audiência.

Como ele não passou na entrevista e o caso precisou ir para a Justiça, os custos de Ali subiram para 10 mil libras (cerca de R$ 67 mil).

Ele chegou a ir a paradas do orgulho LGBT e mais de 10 vezes a boates gays para apresentar as imagens como provas.

Ali acabou deixando o país em 2019 por causa do aumento dos custos do processo. Quando sua esposa foi como estudante para o Reino Unido em 2022, ele não conseguiu mais voltar por causa da tentativa frustrada de obter asilo.

Ele contou à reportagem que três amigos seus conseguiram asilo inventando que eram gays. Todos eles levaram as esposas depois do Paquistão para o Reino Unido.

Repostas
Após ser contatada pela BBC para comentar sobre as apurações do repórter infiltrado, Tanisa alegou um "mal-entendido" e negou ter aconselhado o jornalista a fazer falsa acusação.

Shakil disse que passou os dados do repórter para Tanisa sem saber que ela fabricava pedidos de asilo e que a Worcester não apoia isso.

O escritório para o qual Abasi trabalhava afirmou que suspendeu seu contrato enquanto conduzia uma investigação interna.

A deputada trabalhista Jo White, membro da comissão parlamentar de assuntos internos, afirmou que o governo precisa "enfrentar com rigor" os escritórios de advocacia e consultores expostos pela BBC.

Ela também pediu ao Ministério do Interior que suspenda a emissão de vistos de estudo para pessoas do Paquistão, como fez no mês passado com pessoas do Afeganistão, Camarões, Mianmar e Sudão, devido ao que considerou um abuso generalizado de vistos.

O secretário de Estado do Interior do Partido Conservador, Chris Philp, afirmou que a investigação da BBC "expõe a fraude no cerne de muitos pedidos de asilo" e que os consultores jurídicos identificados "deveriam ser processados por fraude imigratória".

"Todo o sistema está podre", acrescentou. "O sistema de asilo precisa ser totalmente reformulado para que apenas um número muito pequeno de pessoas que enfrentam perseguição pessoal real, com provas concretas que a sustentem, recebam asilo."

O Ministério do Interior afirmou que é crime fazer um pedido de asilo que envolva engano e que qualquer pessoa considerada culpada em um tribunal pode ser presa e, posteriormente, deportada.

"Qualquer tentativa de usar indevidamente as proteções criadas para pessoas que fogem de perseguição genuína por causa de sua sexualidade é deplorável", disse um porta-voz à BBC.

"O sistema de asilo é construído sobre salvaguardas robustas para garantir que cada pedido seja avaliado de forma rigorosa e justa."

"A proteção é concedida apenas àqueles que atendem aos critérios estabelecidos. Os abusos são ativamente investigados e os procedimentos são continuamente revisados para impedir o uso indevido."


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